RAUM.Berlin: quando a moda vai além dos desfiles e vira experiência imersiva

RAUM.BERLIN

O RAUM.Berlin teve como tema esse ano a pergunta “Onde a passarela termina, onde a exposição começa?”, e é uma ação produzida pelo Fashion Council Germany que oferece a designers selecionados a oportunidade de transformar salas inteiras em ambientes próprios de criação. Agora em sua terceira edição, o formato, apoiado pelo Ministério Federal Alemão de Assuntos Econômicos e Ação Climática, reúne 16 designers distribuídos ao longo de quatro dias, ocupando o John Jahr Haus com apresentações que transitam entre performance, instalação e exposição.

A proposta? Não é um showroom, não é uma passarela, mas sim um território híbrido onde moda, arte e espaço se confundem.

Como resume a secretária de Estado parlamentar Gitta Connemann, o impacto do projeto está justamente na criação de visibilidade e redes para novos talentos, conectando criatividade e empreendedorismo e posicionando o design alemão em diálogo internacional.

Voltar à Berlin Fashion Week depois de alguns anos foi como atravessar uma cidade que continua a mesma apenas na superfície. Algo mudou, no evento, na moda e em mim.

Após uma pausa (ou melhor, alguns anos em “modo mãe”) voltar a ver a moda acontecendo ao vivo e a cores foi uma experiência reconfortante. Não que a maternidade não seja igualmente transformadora, mas às vezes é preciso lembrar do que existe para além da família. Durante muito tempo, outras prioridades ocuparam o centro da vida. Caminhar novamente por uma experiência de moda me fez reencontrar uma parte de mim que não tinha desaparecido, só estava fazendo uma pausa.

Berlin Fashion Week hoje: múltiplas camadas de um mesmo evento

A Berlin Fashion Week já não se define apenas por desfiles tradicionais. Ela se expandiu em diferentes formatos que convivem ao mesmo tempo na cidade.

Além das runway shows, o evento inclui:

  • apresentações imersivas e instalações
  • talks e conferências de indústria
  • eventos focados em sustentabilidade e inovação
  • plataformas como o METAMORPHOSIS, com debates sobre futuro da moda, circularidade e tecnologia
  • e experiências como o RAUM.Berlin, que desloca a moda para o campo da instalação

A semana de moda em Berlim hoje é menos um calendário linear e mais um ecossistema de linguagens.

RAUM.Berlin: a moda como experiência imersiva

Dentro dessa programação, o RAUM.Berlin ocupa um papel central.

O projeto acontece durante quatro dias no John Jahr Haus, e propõe uma inversão do formato tradicional: em vez de passarela, instalação; em vez de desfile, percurso.

Cada dia reúne diferentes designers que ocupam o espaço com propostas próprias, transformando a arquitetura em extensão da obra.

O ambiente, concreto exposto, grandes vidraças e luz natural filtrada, não funciona como cenário, mas como parte ativa da experiência.

Estive presente no dia 04 de julho e resolvi trazer para vocês as minhas percepções sobre os designers que estavam em exposição neste dia.

O percurso tinha 4 instalações e era possível se sentir conduzido pelas apresentações.

Anne Bernecker — estrutura, silêncio e precisão

Logo na primeira parada, a alfaiataria de Anne Bernecker se impõe pela contenção.

Blazers alongados em tons de creme, off-white e preto aparecem organizados em sequência, quase como um estudo de forma. Aplicações metálicas discretas e volumes controlados criam uma sensação de calma arquitetônica.

Em determinados momentos, modelos e manequins dividem o espaço em composições silenciosas. Nada é excessivo. Tudo parece pedir observação lenta.

É uma moda que existe no silêncio, no cuidado, no detalhe.

PALMWINE IceCREAM — identidade, corpo e presença

Em seguida, o espaço muda completamente.

A PALMWINE IceCREAM apresenta couro colorido, alfaiataria desconstruída e streetwear carregado de identidade. Botas utilitárias, bonés virados para trás, spikes e sobreposições constroem uma linguagem visual forte e afirmativa.

Mais do que looks, o que se vê é construção em tempo real: ajustes, presenças, tensões no corpo.

A roupa não está apenas sendo exibida, está sendo vivida.

Sofia Hermens Fernandez — processo, tempo e construção

Na instalação de Sofia Hermens Fernandez, o espaço se transforma em ateliê aberto.

Tecidos espalhados pelo chão, rolos de material e peças em diferentes estados de construção fazem do corredor uma superfície de trabalho contínuo.

Ao fundo, performers interagem com os tecidos, ajustando e reorganizando camadas em tempo real.

A sensação é de estar diante de algo que ainda está nascendo.

Moda como processo, não como produto.

TATi — corpo coletivo e energia em movimento

A TATi encerra o percurso em outro registro.

Tricô ao vivo, música, materiais espalhados pelo chão e uma atmosfera que mistura instalação e performance criam um ambiente entre festa e manifesto.

O conceito Knitting Is My Rave aparece em peças desconstruídas, texturas sobrepostas e uma estética que mistura caos e controle.

Aqui, o público deixa de observar e passa a participar.

Saí da Berlin Fashion Week com uma sensação difícil de nomear.

Após uma pausa em “modo mãe”, voltar a ver a moda em movimento foi mais do que uma experiência profissional. Foi um lembrete.

Não de quem eu fui, mas de quem eu ainda sou.

E talvez isso seja o mais interessante de tudo: perceber que a moda mudou, a cidade mudou, eu mudei, mas algo essencial continua ali.

A capacidade de olhar e ser atravessada por histórias que não precisam de tradução imediata para fazer sentido.

Mais do que voltar à Berlin Fashion Week, percebi que estava voltando para uma parte de mim que nunca deixou de existir.

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Lívia Monteiro é escritora, produtora de eventos, especialista em gestão cultural e MBA em Gestão de Projetos com aprofundamentos em Dragon Dreaming, Facilitação de processos e Otimização do tempo. Adora falar sobre moda, filmes/séries, livros e viagens. Atualmente está em processo de criação de um novo projeto de autoconhecimento e crescimento com a AmaiLuz Terapias e atua como analista de Marketing Digital e blogueira Modacad.