“Vinho suave?” minha colega, amante dos tintos encorpados, torce o nariz.
“Isso é suco de uva com álcool.”
Eu rio. Jamais me entenderiam.
Não se trata de paladar simplório, nem de ser coisa de pobre.
Vinho doce, pra mim, tem gosto de infância.
Infância? — você pode estar se perguntando.
Mas eu explico.
Nossa casa era cheia. Praticamente uma festa a cada fim de semana.
Todos os primos juntos.
A gente podia brincar de qualquer coisa — ou de nada — e ainda assim era bom.
Bater campainha e sair correndo.
Achar tatu-bolinha na terra.
Secar batata no pano de prato.
E escutar o som dos instrumentos musicais e das vozes empolgadas dos tios e tias cantando MPB.
As risadas mais gostosas vinham quando nos viam fazendo bagunça.
“Deixa os meninos.”- ela dizia.
Macarrão com frango. Peru de Natal. Maionese com maçã. Farofa. Tutu de feijão.
Um bolinho com café. Café com leite com pão amassado.
E até o pão frito, que só ficava bom com pão velho.
E ele. O galão de cinco litros de vinho.
Eu nunca bebi com ela. Nem podia, eu só tinha quinze anos quando ela nos deixou.
Mas acho que, assim como essas comidas, o vinho tem esse gosto de festa de família.
De casa cheia. De música. De alegria.
Acho que esse vinho, acima de todos os outros,secos, de uvas chiques, caras e nobres, nunca vão ter o que esse tem.
E é isso que me deixa mais feliz, nessa doce nostalgia.
Porque pra mim, ele tem gosto de casa da Vó Ina. ❤️
