Ronaldo Fraga homenageia Milton Nascimento em desfile emocionante na SPFW

Ronaldo Fraga SPFW Milton Nascimento

Havia um trem de luz cruzando o chão do Museu da Língua Portuguesa. Um menino de asas de papelão caminhava devagar, abrindo o desfile como quem acende uma lembrança antiga. Assim começou o retorno de Ronaldo Fraga à passarela, e não poderia ser de outro modo: com poesia, música e a delicadeza de uma homenagem que parece ter saído de um sonho de infância.

A coleção se chama “Minas-Nascimento” e foi apresentada na SPFW N60, que celebra os 30 anos da semana de moda brasileira. O nome já entrega o destino da viagem: um encontro entre Minas Gerais, terra natal do estilista, e Milton Nascimento, o homenageado da noite. Mas o desfile vai além da reverência. É uma travessia pela memória de um país que, como as montanhas mineiras, tem silêncios profundos e canções que ecoam por gerações.

Ronaldo não homenageia Milton apenas como cantor, ele o traduz como símbolo. Como se a voz que atravessou o Atlântico e embala nossas saudades pudesse agora ser vista, tocada, vestida. Nas roupas, bordados e rendas feitos por artesãs de Minas, Goiás e Santa Catarina. Nas texturas de crochê que lembram os tapetes das casas antigas. Nos vestidos em trapézio que flutuam como brumas de serra. E, principalmente, nas crianças que entraram na passarela, não para exibir roupa, mas para reencenar um tempo que a gente quase esqueceu de sentir.

Fraga é mestre em transformar moda em narrativa. Ele não monta desfiles, ele conta histórias. E dessa vez contou a de Milton menino, aquele que ia com os pais aos ensaios de coral da igreja e sonhava com o mundo a partir de uma janela em Três Pontas. Por isso, as crianças: elas são o espelho de um começo. São o “nascimento” literal e simbólico dessa homenagem. Cada passo infantil carrega a ingenuidade que ainda vive dentro da arte de quem cria sem medo.

O cenário foi pensado como um altar para a palavra, afinal, o desfile aconteceu dentro do Museu da Língua Portuguesa, lugar que guarda a alma do nosso idioma. Entre projeções e luzes que desenhavam morros de Minas nas cabeças dos modelos, a trilha soava como uma prece. “Travessia”, “Maria, Maria”, “Canção da América”, músicas que todos conhecem, mas que naquela noite pareciam novas, como se tivessem acabado de nascer junto com o desfile.

A presença das crianças causou surpresa e emoção. Uma delas, vestida de anjo, carregava asas feitas de papelão, tão simples quanto simbólicas. O público prendeu a respiração. Havia ali um contraste potente: a pureza de um gesto em meio à grandiosidade de um evento de moda. Como se Ronaldo quisesse lembrar que a beleza começa no que é mais despretensioso. Que a arte não precisa de luxo para tocar o coração.

A estética do desfile também foi uma carta de amor à ancestralidade. Medalhas de santos costuradas nas roupas, bordados com trechos de letras de canções, e rendas que pareciam nuvens sobre os ombros dos modelos. Tudo construído manualmente, como quem reza com as mãos. Era moda, sim, mas também era rito, um encontro entre fé, infância e memória coletiva.

O público reagiu com emoção. A crítica descreveu o desfile como “lindo e nada óbvio”, destacando o retorno presencial de Fraga às passarelas e a profundidade da homenagem. Milton, ausente fisicamente, esteve presente em cada nota e cada gesto. Sua música se transformou em tecido, cor e movimento. Sua história virou roupa e a passarela, trilha de trem que nos conduz de volta às origens.

Houve também conversas nas redes sobre o uso de crianças na passarela — um tema sensível, discutido sob diferentes pontos de vista. Mas, no contexto de Fraga, nada foi gratuito. O infantil não era ornamento; era essência. Era sobre o renascer da esperança em meio ao caos. Sobre o Brasil que ainda pode ser puro quando contado pelo olhar de quem ainda acredita.

Ao final, as luzes se apagaram lentamente, e o público se levantou em silêncio antes dos aplausos. Foi mais do que um desfile foi uma comunhão. Ronaldo Fraga, como sempre, mostrou que a moda pode ser um gesto político, espiritual e profundamente humano.
“Minas-Nascimento” é um lembrete de que nossas maiores obras nascem quando voltamos para casa para as montanhas, para as vozes antigas, para a criança que um dia sonhou ser artista.

E talvez seja essa a lição mais bonita da noite: para seguir adiante, é preciso lembrar de onde viemos. E cantar, como Milton, a coragem de ser quem somos de peito aberto, alma mineira e asas de papelão.

Lívia Monteiro é escritora, produtora de eventos, especialista em gestão cultural e MBA em Gestão de Projetos com aprofundamentos em Dragon Dreaming, Facilitação de processos e Otimização do tempo. Adora falar sobre moda, filmes/séries, livros e viagens. Atualmente está em processo de criação de um novo projeto de autoconhecimento e crescimento com a AmaiLuz Terapias e atua como analista de Marketing Digital e blogueira Modacad.