Big Eyes – Reflexões e retorno

As ideias estão todas aí… qualquer um pode pegá-las e desenvolvê-las. Talvez essa frase seja simples, talvez ela seja inofensiva, mas até que ponto? Assisti hoje ao filme Big Eyes, baseado em uma história real, conta a trajetória de uma artista, Margaret D. H. Keane, que teve seu talento ofuscado para dar nome ao seu marido, Walter Keane. A arte dela estava ali, ela não foi forte o suficiente para mostrar que era ela o talento, e aos poucos ela foi entregando sua identidade, seu trabalho, sua força, deixando que outra pessoa se apoderasse do que sempre foi dela.

Quantas vezes somos Margaret? Deixamos que nossas ideias, textos, quadros, vidas sejam tomados por outros, pessoas que se alavancam e expõem o que nós não tivemos coragem de mostrar ou desenvolver? Quantas vezes permitimos que os outros utilizem nossos sonhos, nosso amor, nossa vontade de colaborar para apossar da nossa energia, da nossa essência para se destacarem e nos diminuir.

Nem vou entrar no mérito do feminismo, do fato dela sofrer violência doméstica e ter sua fama usurpada por um homem por que “Mulheres não faziam sucesso no mundo da arte”. Vamos contextualizar e pensar que independente do gênero sempre surgem pessoas que irão utilizar seus talentos caso você não se apodere deles, você pode criar um universo inteiro e ter que vê-lo sendo assinado por outro artista.

Passei essa semana por alguns momentos de crise de identidade, sentimentos vulcânicos explodindo, a vida mostrando claramente o que deve ficar e o que deve ir. Quantas vezes me dediquei a engrandecer outras pessoas me colocando sempre em segundo plano. Enalteci valores em outras pessoas que na verdade eu enxergava em mim, projetei, idealizei, e na realidade sempre fui eu, sempre foi uma busca por autoaceitação, por perceber esses valores, por enxergar em mim o que tanta gente enxerga e eu não consigo perceber ou identificar.

A vida faz com que a gente repita ciclos, histórias, até que a gente aprenda aquela lição, já se perguntaram porque mesmo nos envolvendo com pessoas diferentes repetimos um padrão em nossas histórias? Porque sempre acabamos nos envolvendo em algo parecido, amigos, amores abusivos, ou que somem, falta de dinheiro, insatisfação no trabalho… Já se sentiram andando em círculos?

Hoje quebrei um padrão, deixei de engolir a raiva e talvez tenha me excedido, mas posso dizer que foi extremamente prazeroso mostrar que não sou mais tão boazinha e compreensiva com tudo o que me fazem, foi preciso uma erupção, reacender um vulcão dentro de mim para que isso saísse, mas saiu, depois de tanto aceitar e compreender eu me permiti expressar tudo o que esteve guardado em mim por quase dois anos.

Quero assumir quem eu sou, gostar disso, parar de permitir que falem no meu lugar, que compartilhem minha vida como se não fosse minha, apesar de não ter talento para pintura, sempre gostei de escrever, e não é difícil achar textos meus por aí, eu não os assino, crio aleatoriamente… fazia por fazer. Nunca valorizei isso, e agora percebo que essa falta de valorização era uma negação a minha identidade, era uma forma de me autossabotar, um medo de que as pessoas me enxergassem, medo que as pessoas se aproximassem de mim. Sempre criei estratégias de defesa, queria que as pessoas estivessem por perto, mas não queria que me vissem. Talvez porque sempre fui melhor em escrever do que falar e lendo meus textos elas não precisam olhar para mim, nem eu para elas.

Hoje voltei pro blog, voltei a falar do que sinto aqui, voltei a me reencontrar e me deparei com alguém que eu finalmente posso dizer que gosto. Margaret e seus Big Eyes me fizeram acordar de novo, enxergar além do que eu vejo, além do que eu mostro. Foram muitos passos de 10 de agosto de 2015 até aqui, data do início do meu primeiro curso de autoconhecimento, e hoje posso dizer que sei quem eu sou e quero mostrar isso pra vocês.

Espero que tenham gostado do retorno depois de 7 meses sem escrever, espero poder cumprir meus compromissos com essa volta. Sei que tenho muito o que melhorar nesse sentido, mas poder dividir esse momento com vocês já valeu muito.

Lívia Monteiro

Lívia Monteiro é produtora de eventos, especialista em gestão cultural e em projetos. Voluntária no IVB. Fascinada por moda, cultura, cinema e literatura, vive com a cabeça na lua e precisa lembrar de manter os pés no chão... ainda sonha visitar Paris.